Eu preciso tomar um baque daqueles. Uma pancada tão grande que me impeça de dormir pelos próximos 20 anos. Porque do jeito que as coisas vão eu não aprendo. Os pequenos baques que a vida tem me dado não me ensinam nada. A amarga recompensa dos meus erros e deslizes não me mata, me deixa mais forte. Assim, eu sempre volto a fazer a coisa errada. Sempre escolho o caminho mais tortuoso de lidar com um problema ou superar alguma amargura espiritual. Posso muito bem evitar a maioria dos meus erros mais comuns. Posso passar pelo mal que me incomoda e não olhar, mas não… eu tenho que olhar. Posso pegar o telefone e não ligar, mas não… ter autocontrole é pedir demais. Posso esbarrar ocasionalmente ou não com o que me angustia e sair à francesa, na ponta do pé, sem perder a classe, mas não… eu sou um idiota! Boa parte dos meus problemas não é culpa minha. Aprendi desde cedo a culpar sempre o outro. Mas não é uma acusação calhorda nem nada assim. É que desde pequeno aprendi a reconhecer minhas qualidades e saber medir quanto delas influencia minhas relações e quanto delas não consegue sobreviver ou e se sobressair na presença da gama de defeitos alheios. São sempre os defeitos alheios que estragam tudo. Não posso aceitar que alguém chegue pra mim e diga: “o culpado foi você”. Não! O culpado não fui eu. A culpa é sempre do outro e vai ser sempre assim, com o perdão da sinceridade. E eu tento fazer as pessoas acreditarem nisso e comprarem minha inocência. Muitas delas o fazem, agradeço. As que não fazem, simplesmente preferem fechar os olhos para o meu cálculo perfeito de inocentabilidade. Mas mesmo assim, sabendo que eu não tenho culpa de nada eu consigo estragar tudo com um simples sussurro espontâneo ao pé do ouvido. Nesse momento você deve ter tudo ensaiado, cada passo, cada palavra, cada movimento e sua saída de classe, deixando a platéia esperando pelo segundo ato. Em vão. Mesmo sabendo de tudo isso, que nada é culpa minha, que essa auto-sabotagem é apenas uma estratégia para não cair na invencibilidade da inocência eu não consigo lavar essa falsa culpa que impregnou meus cabelos e roupas e não paro de me sabotar. E mesmo sendo inocente sempre estendo as mãos para serem algemadas, fazendo o número mais antigo do livro dos palhaços da vida, o papel de idiota.