Continuei minha caminhada, infinita caminhada, ofício infinito em prol do finito. Não posso me deixar abalar por percalços ou barreiras emocionais que encontro no caminho. Não é esse o meu papel. Na verdade, meu papel não é muito definido. Não há como dizer exatamente para que serve o meu ofício, não deixo as pessoas mais felizes, não construo nenhuma relação da qual me orgulhe. Apenas caminho. E encontro com pessoas que não mais encontrarão com os seus. Sou culpado pela dor, pelo sofrimento, pelo fim da dor, pelo fim do sofrimento. Estou presente sempre que uma criança está longe de seus pais, ou quando seus pais se distanciam ou, pelo menos, se desumanizam. Estou presente sempre que um trem descarrila. Sempre que neva, que chove forte. Sempre que as pessoas querem roubar meu emprego. Querem se fazer passar por mim. Não entendo como alguém pode invejar (e invejam) meu emprego, ao ponto que querer me imitar (e me imitam, apenas imitam). Não me orgulho do que faço, mas faço o que nasci para fazer. Sou um perpétuo. Estou sempre com com alguém, à espreita, andando de mãos dadas, em seu nascimento, em seu desnascimento. Não posso me apegar, não posso. Tento me convencer disso. Não posso dizer que não me afeiçôo às pessoas que encontro pelo caminho, durante minha caminhada. Como aquela moça que esperou e sofreu na ante-sala da morte. Mas não posso. Não posso me lembrar. Tenho uma missão, continuar caminhando. Tenho que vagar e vagarei, serei o último a vagar. Sempre.