Pensei muito antes de me mudar pra essa casa. À primeira vista, não era uma boa idéia, eu nunca fui bom em assumir tal grau de independência. Mas mudei. Os primeiros dias, as primeiras semanas, os primeiros meses são sempre estranhos, você acha que está faltando algo ou, no pior dos casos, sobrando algo, sobra que, se demora a ser identificada, pode comprometer a estrutura da casa. Depois tudo fica mais familiar, aquele canto da sala é o canto da sua sala e não mais o canto da sala da sua nova casa. É uma mera questão de mudar a posição do pronome, que tudo muda, para melhor ou para pior. No meu caso, para melhor. É, definitivamente, para melhor. E talvez isso me confortasse. Mas não, tem algo faltando. Não sei se é um capacho na porta da frente, ou uma daquelas pequenas geladeiras de hotel. Algo falta, isso eu sei. Às vezes fico me perguntando se algo, em algum momento, foi roubado, se esqueci de trancar minha casa e alguém aproveitou a oportunidade e me levou talheres, copos ou guardanapos. O que mais me incomoda é o fato de achar que o larápio aproveitou e deixou alguma coisa para trás, algum souvenir, um item que me incomoda por existir e por destruir aos poucos e eternamente minha casa, sem que eu possa fazer nada. Esse é o problema: algo sobra. Sempre precisei, de tempos em tempos, me reconectar com essa independência. Esse caso, nessa casa, não é diferente. Ela satisfaz todos os meus anseios juvenis. Aquela idéia de estar fazendo algo, de que agora vai dar tudo certo. Isso tudo seria suficiente para mim. No entanto, eu insisto em achar que o ladrão me tirou uma coisa importante e me presenteou com a chave que destruiria qualquer sonho construído mal e porcamente. Eu não quero voltar a ser dependente de um sonho de vida adulta. Eu quero ser esse sonho. Mas não sei se posso evitar, pois agora vejo: o ladrão me levou as bases sólidas que há séculos fincavam minha casa nas areias macias dessa beira-mar e colocou rodas em seu lugar. Agora eu desço em direção ao mar, rápido, e mais rápido. Não é uma situação muito estranha para mim. Já devo ter sonhado com isso. Ou vivido isso. Não importa o contexto, eu tenho certeza que nadei vigorosamente até a costa, perdi guelras, criei pernas e recomecei do zero. Agora já não sei mais se tenho fôlego, não devia ter fumado todos aqueles cigarros. Mas também não sei se quero nadar de volta. Sei apenas de uma coisa: tenho medo de viver à deriva.
acho que desenvolvi dupla personalidade e to postando em um outro blog… tenho certeza de que escrevi esse texto.
tipo aquele filme com johnny depp?